terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O Torrão Natal

Um célebre poeta polaco, descrevendo em magníficos versos uma floresta encantada do seu país, imaginou que as aves e os animais ali nascidos, se, por acaso, longe se achavam, quando sentiam aproximar-se a hora da sua morte, voavam ou corriam e vinham todos expirar à sombra das árvores do bosque imenso onde tinham nascido. O amor da pátria não pode ser explicado por mais bela e delicada imagem.
Coração sem amor é um campo árido, quase sempre, ou sempre, cheio de espinhos e sem uma única flor que nele se abra e o amenize.
Haveria somente um homem em quem palpitasse coração tão seco, tão enregelado e sem vida de sentimentos: o homem que não amasse o lugar de seu nascimento.
Depois dos pais, que recebem o nosso primeiro grito, o solo pátrio recebe os nossos primeiros passos; é um duplo receber, que é duplo dar.
As idéias grandes e generosas dilatam o horizonte da pátria; a religião, a língua, os costumes, as leis, o governo, as aspirações fazem de uma nação uma grande família, e de um país imenso a pátria de cada membro dessa família.
Mas, deixem-me dizer assim, a grande não pode fazer olvidar a pequena pátria; dessa árvore majestosa que se chama a nação, o país, não há quem não sinta que a raiz é a família e o berço pátrio.
Há nesse santo amor uma escala ascendente, que vai do lar doméstico à paróquia, da paróquia ao município, do município à província, da província ao império: ama-se o todo porque se ama cada uma de suas partes.
Com efeito, é impossível negar que em suas naturais e suavíssimas predileções o coração distingue sempre, entre todos os distritos, cidades e diversos pontos do país, o torrão limitado do berço pátrio; pobre ou mesquinho, esquecido ou decadente, agreste ou devastado, é sempre amado por nós e sempre grato para nós.
(Trecho da obra de Joaquim Manuel de Macedo:  O Rio do Quarto, 2.a ed., p. 58).

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